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O poeta voltará!

O poeta foi ali, lá, acolá, não sei onde. Sei que voltará. Foi buscar fragilidade em solos lavrados de fraternidade. Foi ainda mais além, acender o farol do mundo, iluminar o breu profundo que aqui se estabeleceu. Foi buscar a estrela de Belém, os sinos repicando o bem, a neve para branquear o chão e tornar o natal tão lindo, ainda que mera ilusão. Foi regar a primavera, colher a flor mais bela a exalar emoção. Em tardes outonais, roubar o dourado das folhas, a nostalgia encantada do tempo para o desengano do agora que não se encanta mais. Foi pedir paz onde há guerra tão fria que a alma aterra e congela sentimentos. Foi estancar o inverno, fechar o portal do inferno de onde os demônios disseminam o mal. O poeta foi ali, lá, acolá, não sei onde. Só sei que voltará.

Sem rumo!

Não sei se prossigo ou fico, o que me espera em outra esfera, não sei explicar o que sinto, o que quero e espero. O espaço aqui se estreita, não capta o que meu coração revela. Se algum sentimento me resta ou alguma palavra se presta a me servir de lenitivo, ensina-me outro rumo sem o amargor do absinto. Meu pensamento se esparge sem ter mais onde ancorar: na primeira muralha bate como barco sem rumo, perdido, que só quer voltar. Giro com o mundo veloz na vagareza de meus passos e meu descompasso, cruel algoz, aponta a todo instante o que não faço sob as cores de um sol radiante gerando matizes em um campo brilhante que minh’alma ultrapassa e não vê; a mesma que minha sensibilidade não mais alcança, mas almeja.

Recomeço!

No peito, marcas que tento apagar. Na alma, vincados os sonhos que ainda restam. Nos olhos, misto de fim e começo. No coração, batidas descompassadas, que, aos avessos, prenunciam vida e recomeço. Novo endereço! Na mala, vastas e ricas experiências. Recair nos mesmos erros? Reticências. É preciso tentar, dar a cara à tapa, viver o novo, talvez. Desconcertante etapa: rasgar fotografias amareladas que fazem sofrer e não levam a nada. Abrir cortinas e janelas, deixar o sol entrar, inundar, mesmo que por uma fresta. Que festa! Ver lá fora a esperança voltando e o amor timidamente bater à porta. Vou abri-la. O resto não importa. Recomeço.

Labirinto!

Rastreio passos por caminhos que perdi. Procuro inversos entre os versos que reli. Busco a essência infiltrada na raiz e a palavra sacrossanta que bendiz. Percorro livros que clareiem minha mente sem encontrar conteúdo convincente. Se me aproximo da verdade, ela se esconde. Então me afasto sem saber: ir para onde? Abro horizontes e não sei qual seguir. Construo pontes com o intuito de unir. Se as transpasso, ultrapasso o meu espaço e vou além de onde precisava ir. Recorro à Freud que explode o pensamento, que não explica, apenas replica meus argumentos. De meu rosário descontei todas as contas e até meu credo anda descrente de mim. Já não sei quem sou, como sou, se sou. Inerte, estou perdida em um labirinto pintado em minha mente. Triste mente, triste coração que grita a confusão que sinto: sou um labirinto e só.

Náufragas palavras!

Pobres palavras, náufragas e inaudíveis, vagueando perdidas no vasto oceano à mercê do vento, ondas e tormentas, tentando emergir a um novo plano. Viajantes sem destino buscam outro rumo, uma razão maior para se tornarem texto. Vagam imersas, desencontradas, sem prumo, apagadas, sem nexo, longe de um contexto. Ah, palavras, que não se deixam ouvir! Que itinerário pretendem seguir? Não emitem som, trazem dias sem glória. Qual ancoradouro aportará sua fantasia, a ousadia, se um dia se tornarem história? Quem sabe as estrelas do mar as embalem, aconchegantes e faceiras as façam refletir ou a linha do horizonte as encontrem defronte ao novo por do sol que há de vir. Quem sabe as ondas do mar as naveguem e brancas espumas as façam se quebrar em um castelo de areia que, ansioso, aguarde o mundo de sonhos que sonham ancorar.

Introspecção!

Saio de mim. Observo-me. Sou mar vigiando a ilha volteando seu redor, tentando explicações. Busco me compreender. De longe e de perto há muito de encoberto. Pego carona em uma onda que me leva e traz. Passado e presente vasculham-me a mente. Travam embate perspicaz à procura da fase em que me perdi, onde o obscuro não refaz o que não lembro mais. Apaguei com borracha e ninguém me acha: é onde me desconheço. Onde a angústia mora e o nada me consola. Imagino uma escada e recomeço outra vez do primeiro degrau. Vou limpando as fuligens até alcançar o último e clarear o que tranquei. Talvez assim me ache e me traga em um encontro surreal.

Medidas!

O sempre é finito para se sonhar, espaço ínfimo para poder voar, o longe é perto para se alcançar: razões que queiram me levar para lá. O tempo é escasso para se perder e reencontrar o que se quer achar. As horas não vão avisar se vou sorrir, se vou chorar. O muito é pouco para eu sentir o quanto ainda deve estar por vir, o tanto não sabe medir a dimensão do amor que cabe em mim. Cada emoção revela, por tabela, se está ou não se aproximando o fim. Só um tempinho mais para se escrever em tempo recorde, cores do entardecer. É ano-luz que, em segundos, conduz o sol que se prepara para morrer sem intervalo para se recolher palavras que possam descrever a multidão de matizes que a voz embarga, o tempo que passa depressa sem perceber meu olhar que divaga e tanta beleza atravessa.

Busca!

Em busca de palavras, na rota do sol, sigo a rota do sol quando o vejo bem longe irradiando sua luz já branda, expondo um entardecer tranquilo de cores tênues, pálidas, antes do anoitecer. Vou em busca de palavras no lusco-fusco, esparramadas, abandonadas ao ocaso. E minha alma se inunda nessa cascata que magia infunda, aura abençoada, tobogã dos sonhos, ondulações de cores suaves como o outono de folhas caídas, tapete verde-musgo mesclado de amarelo-ouro. Trilha para a fantasia. Crepúsculo que finaliza o dia e que sacia a alma ávida do poeta, transvestindo rotas em magias ao nascer da mais etérea poesia.

Movimento!

Abre a janela. Da alma e do mundo. Lá fora o sol espelha. Reflete o rosto dela. O movimento da vida convida a andar. O som da natureza chama sem falar. Os jardins oferecem mel de seu labor. Flores se dão, imensidão. Captam olhar, a mais recôndita emoção. O perfume exalado inebria, percorre caminhos intransitáveis. Borboletas voam bailados, esnobam cores, suavidade, sedução, pecados. Colibris levitam arrebatados. Girassóis dispensam o sol, adornam o redor de seu cabelo. Sobre a relva molhada, os pés descalços descarregam o stress da jornada. O horizonte beija a terra. A noite vem cobrindo o sol. Hora do arrebol. Da nostalgia. Não é noite nem dia. Não espera a lua. Nem sabe se virá. Só a realidade e o encantamento de ter vivido o hoje.

Querer!

Já não sei quem sou, onde estou, para que lado vou. Perdi-me na valsa da vida sem chance de me achar, sem contrapartida para me engabelar. Nada que me incentivasse a luta, ousar a disputa, perder ou ganhar. Descompassei ao querer girar, cambaleei por todos os cantos sem ter onde me aprumar. Ceguei-me à ilusão de encantos. Quis parar. Valsei a contradança sem par, sem aliança imbuída de cumplicidade na realização de sonhos, e poder, um dia, com eles voar: sonhos que me vestiram para me reencontrar. Fugiram-me motivos, sorrisos, entusiasmo. Secaram-me lágrimas, sinais de emoção. Não mais encontro condução a me possibilitar continuar. Abraço a poesia: ela me reverencia, me acompanha noite e dia. Com ela choro e rio. Em segredo, desabafo. Agravo e desagravo. Nela eu confio.

Talvez!

Talvez O tempo reverta a pálida esperança em crescente certeza e me traga a surpresa de um bem inesperado que nem sempre se alcança. Talvez o amanhã retroceda ao ontem ininterrupto e o estenda ao futuro ou tudo fique na mesma. História que tento mudar, rima que não quer mais rimar, poesia que já não se faz notar: enfatizada, mastigada, engasgada. Talvez o hoje vivido tenha valido uma eternidade e meu eu distraído não tenha medido tanta felicidade nem notado as manhãs de belezas louçãs, momentos desprezados na espera do amanhã que talvez nunca venha ou se faz de rogado. Talvez esses versos piegas sejam fiéis mensageiros de um tempo verdadeiro e mensagens sinceras, carregando bagagens de sonhos e miragens, gerúndio se estendendo em todos os tempos trazendo-me a chance de continuar sendo mesmo em um tempo já ido, mesmo sem nunca ter sido.

Eu!

Incógnita de mim. Insolúvel teorema. Solução e problema. Simplicidade. Complexidade. Mentira e verdade. Imperfeição. Eclipse solar. Lunar. Total, parcial, penumbral. A busca da claridade. Não e sim. Começo, meio (aturdida) e fim. Ilha perdida. Arquipélago da vida. Barco à vela. À deriva. Onde ancorar? Brilho do sol. Arrebol. Crepúsculo e cores. Primavera. Beija- flores. Borboleta. Flor que não se encontra. Eu: nó, nós. Coluna. Coliseu. Amor. A cotovia, o canto, a dor, o pranto, o riso, o acalanto. Pergunto-me: onde me acho? Em qual plano? Rio? Mar? Oceano? Ou apenas me engano?