paginanova

Mundo!

Lá fora me chama o tempo e, incansável, meu nome proclama ecoando nas marolas do vento, ora brando, ora turbulento. Aqui dentro, mundo imaginário, eu me retranco. Burlo as leis do calendário, horas, dias, meses e anos e deixo o tempo ir, sem resposta, sem realizar o que mais gosta. Retiro as travas da alma, libero o que me acalma: emoções sinceras e retidas que, em catarse, se manifestam contra as opressões da vida. Abro uma janela no peito, meio que sem jeito, exangue, e a luz, antes como um bumerangue, penetra agora interior adentro, reacendendo minha existência, meu pensamento, minha essência. Revela o amor adormecido na invisibilidade da abstração, entre as metáforas, escondido, nos textos mudos e não ditos, nas entrelinhas da composição. Ah, tempo, passe a contento, não mais importa que me chame o vento, pois no mundo em que me adentro, a poesia rompe ao romper o dia, o amor é amor de fato, é nato e a fantasia se tornou real.

Arte!

Arte Caminho o percurso de sempre. Percorro o que não condiz com minha mente. Um desassossego invade meu ser, arrasta-me para ver o que ali não existe. Sussurra-me aos ouvidos: ouça! Paro, mas a inquietude persiste. A melodia insiste em ressoar a trilha sonora que me persuade. Uma força misteriosa me invade. Rendo-me. Deixo-me levar por ondas magnéticas até onde o sonho permite. E ele jamais impõe limite. Minh’alma deixa aquele lugar. Lá estou e não estou. Sem impasse, encaro o desafio. Reconheço-me na arte, no que me impactou, em toda a beleza que se esconde na pura expressão de amor: força movedora a segurar o tempo. Arrebatada pelo mistério de sua magnitude, vejo toda a plenitude de seu esplendor e ainda me sinto faminta de vida interior. Comparo. Arte está imbuída na mística da fé. Ambas ocupam o mesmo patamar. Movem, comovem, removem. E de lá volto ao mesmo lugar onde me deixei levar, meu cais, com a grata sensação de ter conhecido a paz.

Espera!

Quando tu não vens, meus olhos se perdem no escuro. Meus pés não tocam o chão. Flutuo entre densas nuvens: te procuro em vão. Como olhar as estrelas, se elas se escondem no teu olhar? Sinto-me tão só. A lua não aparece. E, de manhã, nem sei mais onde nasce o sol. Quando não vens, meus braços ficam vazios, faz frio no meu coração. Minh'alma fica em silêncio, emudece em solidão: não escuto mais aquela canção. Pensas que em algum momento tua flor te esquece? Ela arrefece sem teus passos no jardim. É assim: tua flor de jasmim renasce apenas quando tu vens.

Fábula!

Entediante é a vida nua, concreta, vivida. E eu já não cria na existência de laços, espaços, anjos, fantasia. Sem compartimentos para armazenar alegria, passei a arrastar-me na brancura dos dias. Eis que sem entendimento, à minha revelia, fui levada a mundos tão diversamente leves onde o viver me aprazia.

Saciedade!

A saciedade mais a fome trouxe-me a fartura, e lembrou-me o jejum. Veios se abriram, sangrando. Uma sede inesgotável nasceu. Ausências me povoaram e um medo antigo ocupou-me. A saciedade me penetrou com seus vazios, encharcando-me de esperas.

Impressões!

Estou de passagem, tu sabes. Estás de passagem, eu sei. Deixa que eu grave em minhas digitais a tua travessia ou deixa que eu grave minhas digitais em tua travessia. Tanto faz!

Hei!

Hei de amar-te: com a lucidez dos cegos, com a serenidade dos pródigos, com a urgência dos meigos, com a volúpia dos mártires. Hei de amar-te: no abandono dos sustos, no intervalo das dores, no revés dos sonhos. Hei de amar-te: apesar dos limites do corpo, durante a suspensão dos medos, com a delicadeza que a dor me imprimiu.

Percepções!

Quando dei por mim o mundo havia mudado. Parei, embora o tempo não houvesse parado. As pessoas já não eram as mesmas. Afeições, aflições, feições, expressões. Estranhei. Procurei olhar bem por dentro, talvez algum indício em cada uma, um sinal que preenchesse essa lacuna ou me guiasse onde as pudesse achar. Ou me achar. Divaguei. Fiz da ilusão passaporte para o indefinido. Por onde andei esse tempo todo? Criei com minhas mãos terrível engodo. Nele mergulhei. Fuga insensata de querer permanecer, viver a utopia da poesia que criei onde o mundo era exatamente o que sonhei. Vi-me só ante a multidão que desconhecia, a mesma da qual me dispersei e pertencia e agora se afasta sem sequer me entender. Despertei. Perdi a contagem dos dias, dos meses, dos anos, das madrugadas varadas em desenganos, das manhãs em que nem via o sol nascer mas o descrevia como quem sempre o vê, sentindo seu calor e luminosidade, brilho ilusório de felicidade. Impossível voltar atrás no tempo, dizer às pessoas o que não foi dito, que me perdi no que foi escrito e foi escrito tudo o que senti, o que vivi e onde renasci.

Leva-me!

Leva-me! Serei uma fresta, uma nesga, uma brecha, um atalho costurado em teu caminho o silêncio disfarçado, um pergaminho. Se, por acaso, te perderes no ocaso e te cegares o breu da escuridão posto-me à frente agora, sem demora e me dou-te em poesia, a mais bela criação.

Falhas!

Faltou dar significado à vida, viver o instante antes da partida, trancar a porta aos sentimentos precários, desnecessários para um transcorrer palpável. Renascer a cada dia de esperança e alegria. Faltou o recomeço, o afã de reinventar motivos para comemorar as artimanhas da sedução, o fetiche da paixão. Exorbitação. Faltou alimentar os sonhos que, enfraquecidos, morreram sem desabrochar, como um rio que nunca chega ao mar. Faltou caminho, chão aos nossos passos, espaço para cultivar o bem que seria as almas em união, corpos em comunhão, destino a nos conduzir ao nosso lugar. Faltou poesia. Versos se trombaram à revelia, sem sequer um gesto de amor, sem o encantamento da magia. Faltou fidelidade à essência, matéria-prima da existência. Encarar o fracasso como reticências. Faltou a demora na escolha das linhas e das cores na trama dos teares construindo o artesanato do amor na delonga que exige o tempo, seja lá quanto tempo for. Amor não se constrói da noite para o dia. Faltou futuro para tanta ousadia, faltou bravura a desenhar o futuro, faltou a firmeza do ancoradouro seguro. Faltou confiarmos em nós mesmos. Abraçarmos o que nos convinha. Contermos os desatinos. E sucumbirmos.

Mudança!

Abandona o cais. Navega. Engole os ais. Enfrenta as tormentas. Tu és capaz. Sai do ventre, rompe a bolsa. Desliza com a expulsão. Respira. Chora. Esperneia. Acata os desígnios da vida. Ela convoca; não convida. Supera idas e partidas, adeuses e despedidas. Recolhe os sonhos. Ainda há. Basta acordá-los e viajar. Escancara a janela. Observa por ela e o mundo está lá. Recomeça. Um dia após outro. Se preciso, hora após hora. Realiza o que te aflora, resgata o que perdeste e te impulsiona a seguir. Deixa pra trás o que não volta mais.

Ausência!

Ela dançava, ela sorria, ela esbanjava sua alegria. Ela nascia, ela morria e renascia co’a flor do dia. Ela vertente, ela nascente, leito e percurso da poesia. Corria mundos. Não poderia não fosse o dom da inspiração. Varava sóis, cobria luas nas fases frias de noites nuas. Ela esboçava e coloria os muros cegos de seus quintais. Trancava dores, calava ais, abria frestas para os amores. Juntava cacos da euforia e enfeitava os festivais. Vagava versos em sintonia com o trem das cores nas estações. Ela fazia e acontecia sem demarcar as emoções. Ela nascia, ela morria. Hoje ela jaz. Não nasce mais.