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Rupturas!

De repente, a expulsão. Rompe-se o cordão, o calor daquele abrigo. A união umbilical rompida pela contração. O frio, o desconforto, o susto que faz chorar, o ter que encarar a separação. O mundo. De repente, cerra-se a cortina, muda-se o cenário, embaçam-se as luzes, tremula a ribalta de um palco improvisado: perguntas impertinentes, respostas não condizentes, personagens alternadas, história remexida, show irreverente. A vida. E as rupturas se vinculam. Começo de caminhada, o papel, as linhas tortas, o branco sendo tingido, o sentido das palavras, o destino a se cumprir, o tempo a exigir. O tempo. Fase da colheita. Colher o que se plantou. O cultivado, permanece. O resto, esmorece. Bem que se pudesse o tempo pararia. Uma nova chance. Começar o novo. Não, de novo. Carpe Diem. Vem o cansaço, o descompasso, o desejo de parar e a vontade de chorar as partidas, despedidas, amigos, entes queridos, sonhos não vividos truncados pelos caminhos. A realidade. Saudade. Às vezes, a felicidade. Momentânea, raridade. De soslaio ela invade e se vai sem alarde. Reta de chegada. Fim da caminhada. Início de outra jornada? Atrela-se a ruptura. A última, derradeira: ou seria a primeira? Maktub.

Teu Silêncio!

Olho-te bem devagar. Há sempre uma verdade a ser descoberta, uma porta fechada, uma janela entreaberta, uma luz apagada, um brilho varando pela fresta. É preciso desvendar detalhes, tocar teus limites, trocar nossos olhares, concedermo-nos nos ver e, até onde me permites, conhecer o que omites, o que não deixas transparecer, tatear o que me escondes, desabotoar tuas pausas, compreender tuas causas, aceitar-te como és. E no silêncio da resposta que me percorre e corrói mergulhar em tua fala gritante, berrante, calada, que dói mas que ama!

Apelo!

Venha! Venha mais cedo! Venha olhar-me nos olhos antes que fujam, envergonhados, por alguns fragmentos de desejos ousados. Venha! Tenho para você a essência que invade a penumbra. Tenho o aroma dos seus lençóis preferidos. Os mesmos que recendem o infinito e reacendem intensidades. Sei de você antes que se apresente. Apenas sei. Então, venha! Venha sorrir comigo sem saber a razão. Traga-me os seus toques, seus traços únicos. Cruze a linha invisível e torna-me, sem recear, eternidade sua. Maria Luiza Faria

Via Crucis!

E, então, decidi despojar-me de todos pecados, ser meu próprio Pôncio Pilatos, ter meu corpo crucificado. Não para salvar a humanidade: não me crivaria de tamanha dor. Cristo foi mais sonhador. Não, foi mesmo autopiedade, da alma, em busca de serenidade. Caminhei com a cruz a que me impus. Não caí somente três vezes. Foram muitas! Já havia tombado tanto, pelo peso de meu pranto, por minha consciência pesada em não ouvir a voz da razão, nem mesmo a do coração. E, agora, Via Crucis, levo-me à condenação. Fui Verônica. Cantei o meu desencanto, limpei sangue de meu âmago, deixei registrado no pano o meu triste desengano. A Madalena arrependida, pelo homem incompreendida, agora cheia de dores e acatos. Vítima dos desacatos. Tentei levantar-me, ser o meu Cirineu, reacender a chama que um dia morreu. Momento sublime. Maria, mãe que redime. Um encontro, um olhar, nem foi preciso falar. A única expressão: a de nosso coração! Sedenta de amor, bebi o seu mel, desnudei minha alma, arranquei-lhe o véu e chorei. Implorei. Ajoelhei-me e, finalmente, enxerguei uma luz semiapagada, de um sol eclipsado recomeçando a acender.

Crença!

Creio em ti! Antecipa-me o céu. Bem de leve, sem escarcéu, clareia-me a escuridão. Mar de atrocidades, turbilhão, onde a hipocrisia se cria gerando só falsidades e a poesia se esconde em meio à desarmonia. Anseio a paz que há em ti, reviver o que já cri. Abre-me portas, janelas, incita meu voo livre, ampara-me em tuas asas que de junto de mim convive. Preciso do ar que exalas. Ouvir de teu coração a melodia que espalha ressuscitando emoção. Devolve-me a paixão esquecida, me faz forte, guarida. Põe-me diante do novo, de novo, diante da vida. Estanca a minha ferida, sopra de mim essa dor, livra-me de qualquer rancor, devolve a fé que perdi. Só tu podes. Creio em ti, pois és o amor!

A poesia virá!

E a poesia virá nascida de todo lugar: livre, plena, pura, apesar do breu da noite que traça mistérios no ar ocultando a lua insinuante que, através de uma nuvem entreaberta, revela um brilho de sedução, provocando um fascínio ofegante que prontamente despertará. E a poesia virá, quando ao abrir os olhos vir a noite virar dia colhendo toda a alegria da manhã que sugere renascer encobrindo a nostalgia de um sol que se faz poente e languidamente desmaia no horizonte após a tarde, a despedida, e calmamente se vai. E a poesia virá quando a esperança ficar. Ainda que a dor atormente, o mundo tornar-se descrente, o sofrimento teimar em arder queimando o cerne da gente, a alma só ganhos terá lapidada pelo ourives do tempo trazendo a certeza de que passará. E a poesia virá, simplesmente, sem palavras, brandamente, com o silêncio que se fará, traduzido pelo encantamento dos versos que o poeta interpretar, enlevado pela emoção de quem fala sem falar.

Sem Poesia!

Quando acabar a emoção, preponderar a razão, traçarei a minha trilha. Nenhum envolvimento que arrebate, nem a luz que da estrela brilha, nem tudo que se interpõe, de repente, no caminho, e nos propõe um embate, pressionando-me a indagar: fico ou me deixo levar? Nada me fará parar! Quando não houver mais emoção e puder contar com a razão recomeçarei a vida. Direi não ao coração, às armadilhas sutis, artimanhas febris forjadas pelo destino. Às oferendas do mundo, às cores, dores, flores, amores. Seguirei em frente, usarei o tino ilesa a sentimentos profundos. Mas como projetar os sonhos? Sem alvoreceres, como sonhar? Desprezar entardeceres do outono? Sem arrebóis volveriam os girassóis? Os amanheceres, a chance de recomeçar? Pode o poeta viver sem oferendas, belezas que trazem o dia, as dores, os amores, as flores, os sentimentos? Seria negar a todo momento o dom divino de poetizar. Morrer a cada dia, sufocar o que precisa extravasar. Trancar para si a poesia e omisso, se calar. Deixar à deriva os versos, a rima sozinha a bailar. Matar o que alivia, se suicidar!

Transformação!

Retira o cinza da vida, pinta-a com a leveza das cores: suaves, amáveis, amenas, penetráveis à alma, apenas, à espera do facho de luz que conduz, estimula à calma e induz ao encontro da paz. Enxuga o pranto salgado molhando o rosto cansado. Mostra que sabes sorrir. Inventa motivos. Eles hão de vir enterrar os já saturados, os novos serão festejados com bailados, flores e cores em qualquer jardim. Faz isso por ti, por nós, por mim. Dança com o por do sol, vibra a estrela cadente riscando teu âmago ardente. Lixa a aspereza do corpo, mergulha-o em águas fluentes onde haja rosas, ninfas e duendes. Desequilibra o lúcido, o insano. Pende para a loucura, por instantes, intervalo para a inspiração, suporte para a transformação.

Percalços!

Agora que já fomos tão longe, enfrentamos temporais, sufocamos nossos ais, amparamo-nos, um ao outro, nas derrocadas. Choramos, dançamos, demos gargalhadas, brigamos como todo casal normal. Amamo-nos e feito cúmplices, em segredo, guardamos em silêncio nossos momentos. Inesquecíveis momentos. Os mesmos que agora jogas para o ar esperando que o vento os venham dissipar. Agora que já fomos tão longe pedes, irredutivelmente, para eu voltar. Voltar pra onde? Esqueci o caminho. Tua caminhada foi meu pergaminho, andei teus passos sem olhar para trás, cegamente obedeci aos teus comandos, pensando, um dia, encontrar a paz. Mas, teimas prosseguir sozinho, de meus carinhos que hoje se desfaz. São as intempéries do destino, dragão demolidor de sonhos, que faz do tempo um momento breve onde a volta não se cogita jamais e o percurso se resume em ida nesse curto espaço que se chama Vida.

Espelho!

Que espere a emoção! Dê-me um tempo a inspiração. Rasa de sensibilidade, encontro-me com a verdade de cara lavada sem máscara ou vaidade frente ao espelho. Quem sou? Ele nunca revela. O lado que mostra é o que me prostra e o que todos veem. Retrato mal formulado, moldura sem essência: minha passiva armadura, defesa de meu ponto fraco. Meu exterior de agruras que tento esconder. A fragilidade oculta não deixa transparecer. Minh’alma não espelha e preciso saber o que ela quer de mim. Como mostrar-me nua, se a nitidez ofusca e é o que quero transparecer? Encobre as perfeições mantidas bem guardadas, veladas, consagradas, para os tempos de expiação. Reflete as evidências, o óbvio, as certezas. Esconde o coração.

Busca!

Busco o sonho guardado em uma esquina qualquer do tempo. Com um sopro, o faço reviver, após anos de cárcere privado, vindo agora me surpreender, realizando o desejo mais esperado. Traz o hoje, presente embalado pela essência do inesperado: a certeza do que se pode viver, descartando desperdícios de instantes fracionados e contados, mofados pelo ócio de se perder, apostando no amanhã que pode não acontecer.

Sem direção!

Aponta-me um caminho: de pedras, de flores, de espinhos. Mostra-me a direção, uma pista, um traço, um vão. Devolve-me ao ninho, devastado pelas incertezas das convicções embusteiras, armadilhas traiçoeiras plantadas para depredar o espaço onde piso os pés andando ao revés sem nunca chegar. Ilumina a escuridão da sombra que anoitece meu itinerário: quero ver a luz brilhante acender o pavio da vela e toda sacrossanta fé incandescer o santuário, revelando, em um instante, o final de tanta espera. Indica um ponto sequer, um sinal, qualquer hora, uma rua, um porto, um cais, um talvez, um agora, um lugar onde possa chegar, uma estrela que me guie já que a manhã não vem mais e preciso continuar. Mas, mostra-me!