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“Mulher!”

Para ser mulher trouxe comigo a lembrança de um abraço, um carinho, um afago Um beijo de mãe, de vó, de tia… Para ser mulher trouxe os caminhos pisados por mulheres. Caminhos que meus pés reinventam, parindo de si mesmos novas direções. Para ser mulher trouxe comigo os olhos atentos, brilhantes e curiosos Observei muito e aprendi em silêncio, para poder falar e ouvir, para poder entender antes de ouvir, para poder gritar antes de qualquer… Para ser mulher trouxe comigo a alegria de gerar uma ideia, uma nova opção, um canteiro, um livro, Uma música, uma luz e recolho do chão as pequenas sementes que, espalhadas, nos deram alimento às almas. Para ser mulher entendi o que de nós mesmas se pode aplacar e o que de nós é necessário fomentar. Aprendi os ciclos e os recomeços, Aprendi a segurar as mãos pequeninas e as mãos femininas. Para ser mulher, entendi a solidão e sorri em irmandade. Para ser mulher sangrei e renasci muitas vezes. Para ser mulher, vesti-me de homem também. Para ser mulher sigo sendo, a cada dia, outra ponta. Daniela Camargo

Alma Antiga!

Sou do vento, do tempo, dos antigos cheiros. Amante do sol, das terras perdidas, parte das batalhas das guerras pagãs. Quero as essências! Alquimias sagradas, profanos versos dos sangues pisados. Rubros! Rubros! Sou parte das brumas. Feitiços violados, das bruxas, sou dona. Vermelho! Vermelho! Das paixões internas, dos conflitos profanos, das canções, razão; das profecias, certeza. Parte das preces quando ouço dos sinos, o dobrar. Sou feita de horas! Infinito tempo. Sorvo estrelas. Descalça, a terra louvo! Feita de lua em cada ciclo, a prata, bebo! Fada, sacerdotisa, deusa, madona, mulher! Serena, vestida ou nua: de poemas, a pele banho; os poros, os sussurros, o arquejar! Maria Luiza Faria

Vieste!

Eu pedi que você viesse e trouxesse-me em seus olhos. Sem palavras exatas, entre os versos e indecisões do crepúsculo, você veio. Trouxe- me o céu: o seu. Trouxe-me suas estrelas. O firmamento inteiro no jeito particular de definir- me, na forma mágica de decifrar-me, sem chegar à pele. Eu pedi que você viesse e trouxesse-me em seus olhos: sem ruídos imprevistos, entre pausas e consentimentos das madrugadas. Você veio. Trouxe-me o mar: o seu. Trouxe-me suas marés de poesia no jeito particular de denudar-me, na forma mágica de descobrir-me sem ferir a alma. Você veio e trouxe-me o sal do sentir.

Manhã!

"Desenha uma manhã, ainda que imperfeita, mas onde nos caiba e, em ti, eu esteja!" (M. L.)

Eu?

Eu? Incógnita de mim. Insolúvel teorema. Solução e problema. Simplicidade. Complexidade. Imperfeição! Eclipse solar. Lunar. Total, parcial. Penumbra! A busca da claridade. Não e sim. Começo, meio(aturdida) e fim. Ilha perdida. Arquipélago da vida. Barco à vela. À deriva. Onde ancorar? Brilho do sol. Arrebol. Crepúsculo e cores. Primavera. Beija- flores. Borboleta que sonda. Flor que não encontra. Eu: nó, nós. Coluna. Coliseu. Amor. Cotovia de quem descreveu. Canto. Dor. Pranto. Riso. Acalanto. Pergunto-me: Onde me acho? Em qual plano? Oceano? Riacho? Ou me engano?

Recomeço!

(...) Recomeço do agora sem pressa, sem hora, vazia do ontem, esquecida do outrora, fechada às lembranças, lacradas, fincadas no cerne baldio do meu coração. (...)

Fragmentos!

(...) De repente, a madrugada anuncia a alvorada: branca, esquálida, pálida. Um outdoor na calçada clareia minha inspiração. Vejo a noite virar dia, a lua virar sol, melodia ser canção, sinfonia, arrebol e os versos captados de onde se pôde chegar compõem o poema-magia: sonhos que ainda irei sonhar.

Preciso de Tempo!

Preciso do tempo! Devagar, a contento, levando-me a passo lento por cantos que nunca vi. Que venha de encontro ao vento e em um alento, comigo se deixar levar: permitir-se atrasar, extrapolar limites, parar os pêndulos, calar as horas, deixar-me passar. Tempo bendito, preciso, ainda que em mar revolto, dar-me a mão para atravessar, atracar em qualquer porto, acenar ao que se vai, e a quem queira, abraçar. Barco torto, sem pressa de chegar ao fim. Em cada cais vivermos um pouco mais, sem o temor do calendário, surdo a regras e sermões, unindo-se a mim. Cavalheiro lendário que ousou seu senhor dissuadir, espera um pouco mais: quero dar vida ao imaginário, imagens ao que compor, cobrar o que não vivi, devolver o que vi demais e, após vivermos tantas marés, cumprir seu destino, pé ante pé, sem acelerar as horas. Deixe que se vão embora, siga no controle dos dias conduzindo à revelia minutos cronometrados apressados e resolutos. Faça cada minuto durar cada vez mais.

Fragmentos!

(...) Caminhei lugares intransitáveis. Ultrapassei limites além do que o sonho permite. Transpassei minhas finitudes, minhas altitudes e latitudes, estes chegares da ciência e do avanço, que avançam mais do que posso e alcanço. Nada encontrei além das longitudes que desbravei. Perguntas com respostas não contundentes. Respostas evasivas, não convincentes. Ou nada de respostas! Evasivas, somente! Só mentem. (...)

Fragmento!

(...) Faz um flashback, recolhe do passado os retalhos amassados, cerzidos em sentimentos sagrados, os seus momentos válidos e na somatória com os de agora recomece sua história: junte suas asas às do pensamento e voe, perdendo-se pelo arrebol. Veja de perto o pôr do sol e o nascer de um novo dia. (...)

Prece!

Aquieta meu coração, Senhor! Com rebeldia, ele me impõe ritmos, acelera os batimentos, expande-se e se contrai à minha revelia. Sinto-o atrapalhando meus passos, invadindo meus sonhos, entorpecendo meus músculos. Nas horas de maior silêncio ele grita, indiferente aos meus apelos: cobra-me atitudes, impõe sua vontade e desejos. Assustada, peço-lhe que se cale. Ele ri de mim, dos meus medos inúteis, dos meus segredos antigos. Meu coração tiraniza meus dias. Faz-me exigências e me indaga, até quando eu o manterei prisioneiro. Nos fins de tarde, cansado de lutar comigo, ele se entristece e, com uma voz doce, quase inaudível, suplica que eu o liberte.