Escrevo?

Escrevo:
a folha em branco me impele,
provoca-me,
convoca-me,
remexe meus neurônios,
sentimentos à flor da pele
querem que eu me revele,
que me rebele,
trace recônditos da alma
diante da ansiedade
que me transtorna
o momento em que me encontro.
Palavras se difundem.
Confundem emoções,
debatem-se em confronto,
emudecem as razões.
Escrevo:
um emaranhado de letras
embargadas na mente,
de início,
incoerentes,
mas que ganham sentido
de repente,
à medida que descrevo
a verdade (in)contida,
a palavra que não digo,
o silêncio que consente
em calar o que sinto.
Escrevo:
no papel em branco
– meu cais –
onde aporto meu barco,
onde choro meus ais,
onde volto e parto
e o branco do papel
já não é mais
molhado e pardo.
Descrevo a neblina
de pranto e de mágoa
expressando o que quero,
o que grava a minha retina,
porém que nunca revelo.
Escrevo?
Talvez!

Leva-me!

Leva-me, oh, mar,
às profundezas de teus mistérios,
entre águas,
algas
e corais
onde jazem desfeitos
navios
e castelos,
histórias guardadas
não reveladas,
onde habita em um sacrário,
a paz.
Leva-me, oh, oceano,
a circundar tua imensidão,
participar de teu plano
como um rito
navegando meu barco farto
de conflitos,
despejá-los nas ondas
que nunca voltam
onde o horizonte despenca
no infinito.
Leva-me, oh, céu,
põe-me asas,
carrega-me contigo.
Quero transcender
a mansidão de teu véu,
descortinar alcovas
de amores incontidos,
alçar um voo atrevido,
destemido
e abraçar toda brandura
do infinito.
Preciso transitar entre as estrelas,
descobrir onde acordam,
onde adormecem
e me cobrir de fantasias
e cintilações.
Onde a noite surge
e a manhã começa
para onde vão as minhas orações
quando aos céus dirijo
minhas preces.
Leva-me, oh, montanha,
a permear entre névoas,
cascatas
e entranhas,
trilhar a rota da emoção
em um sonho colorido
e, lá de cima,
vislumbrar
um mundo mais bonito.

O poeta voltará!

O poeta foi ali,
lá,
acolá,
não sei onde.
Sei que voltará.
Foi buscar fragilidade
em solos lavrados
de fraternidade.
Foi ainda mais além,
acender o farol do mundo,
iluminar o breu profundo
que aqui se estabeleceu.
Foi buscar a estrela de Belém,
os sinos repicando o bem,
a neve para branquear o chão
e tornar o natal tão lindo,
ainda que mera ilusão.
Foi regar a primavera,
colher a flor mais bela
a exalar emoção.
Em tardes outonais,
roubar o dourado das folhas,
a nostalgia encantada do tempo
para o desengano do agora
que não se encanta mais.
Foi pedir paz onde há guerra
tão fria que a alma aterra
e congela sentimentos.
Foi estancar o inverno,
fechar o portal do inferno
de onde os demônios
disseminam o mal.
O poeta foi ali,
lá,
acolá,
não sei onde.
Só sei que voltará.

Sem rumo!

Não sei se prossigo ou fico,
o que me espera
em outra esfera,
não sei explicar o que sinto,
o que quero
e espero.
O espaço aqui se estreita,
não capta o que meu coração revela.
Se algum sentimento me resta
ou alguma palavra se presta
a me servir de lenitivo,
ensina-me outro rumo
sem o amargor do absinto.
Meu pensamento se esparge
sem ter mais onde ancorar:
na primeira muralha
bate como barco sem rumo,
perdido,
que só quer voltar.
Giro com o mundo veloz
na vagareza de meus passos
e meu descompasso,
cruel algoz,
aponta a todo instante
o que não faço
sob as cores de um sol radiante
gerando matizes em um campo brilhante
que minh’alma ultrapassa
e não vê;
a mesma que minha sensibilidade
não mais alcança,
mas almeja.

Recomeço!

No peito,
marcas que tento apagar.
Na alma,
vincados os sonhos
que ainda restam.
Nos olhos,
misto de fim e começo.
No coração,
batidas descompassadas,
que, aos avessos,
prenunciam vida
e recomeço.
Novo endereço!
Na mala,
vastas e ricas experiências.
Recair nos mesmos erros?
Reticências.
É preciso tentar,
dar a cara à tapa,
viver o novo, talvez.
Desconcertante etapa:
rasgar fotografias amareladas
que fazem sofrer
e não levam a nada.
Abrir cortinas e janelas,
deixar o sol entrar,
inundar,
mesmo que por uma fresta.
Que festa!
Ver lá fora a esperança voltando
e o amor
timidamente bater à porta.
Vou abri-la.
O resto não importa.
Recomeço.

Labirinto!

Rastreio passos
por caminhos que perdi.
Procuro inversos
entre os versos que reli.
Busco a essência infiltrada na raiz
e a palavra sacrossanta que bendiz.
Percorro livros que clareiem minha mente
sem encontrar conteúdo convincente.
Se me aproximo da verdade,
ela se esconde.
Então me afasto sem saber:
ir para onde?
Abro horizontes
e não sei qual seguir.
Construo pontes
com o intuito de unir.
Se as transpasso,
ultrapasso o meu espaço
e vou além de onde precisava ir.
Recorro à Freud
que explode o pensamento,
que não explica,
apenas replica meus argumentos.
De meu rosário descontei todas as contas
e até meu credo anda descrente de mim.
Já não sei quem sou,
como sou,
se sou.
Inerte,
estou perdida em um labirinto
pintado em minha mente.
Triste mente,
triste coração que grita
a confusão que sinto:
sou um labirinto e só.

Náufragas palavras!

Pobres palavras,
náufragas
e inaudíveis,
vagueando perdidas
no vasto oceano
à mercê do vento,
ondas
e tormentas,
tentando emergir
a um novo plano.
Viajantes sem destino
buscam outro rumo,
uma razão maior
para se tornarem texto.
Vagam imersas,
desencontradas,
sem prumo,
apagadas,
sem nexo,
longe de um contexto.
Ah, palavras,
que não se deixam ouvir!
Que itinerário pretendem seguir?
Não emitem som,
trazem dias sem glória.
Qual ancoradouro aportará sua fantasia,
a ousadia,
se um dia se tornarem história?
Quem sabe as estrelas do mar as embalem,
aconchegantes
e faceiras
as façam refletir
ou a linha do horizonte
as encontrem
defronte ao novo por do sol que há de vir.
Quem sabe as ondas do mar as naveguem
e brancas espumas as façam se quebrar
em um castelo de areia
que, ansioso, aguarde
o mundo de sonhos
que sonham ancorar.

Introspecção!

Saio de mim.
Observo-me.
Sou mar vigiando a ilha
volteando seu redor,
tentando explicações.
Busco me compreender.
De longe e de perto
há muito de encoberto.
Pego carona em uma onda
que me leva e traz.
Passado e presente
vasculham-me a mente.
Travam embate perspicaz
à procura da fase
em que me perdi,
onde o obscuro não refaz
o que não lembro mais.
Apaguei com borracha
e ninguém me acha:
é onde me desconheço.
Onde a angústia mora
e o nada me consola.
Imagino uma escada
e recomeço outra vez
do primeiro degrau.
Vou limpando as fuligens
até alcançar o último
e clarear o que tranquei.
Talvez assim me ache
e me traga em um encontro surreal.

Medidas!

O sempre é finito para se sonhar,
espaço ínfimo para poder voar,
o longe é perto para se alcançar:
razões que queiram me levar para lá.
O tempo é escasso para se perder
e reencontrar o que se quer achar.
As horas não vão avisar
se vou sorrir,
se vou chorar.
O muito é pouco para eu sentir
o quanto ainda deve estar por vir,
o tanto não sabe medir
a dimensão do amor
que cabe em mim.
Cada emoção revela,
por tabela,
se está ou não
se aproximando o fim.
Só um tempinho mais
para se escrever
em tempo recorde,
cores do entardecer.
É ano-luz que,
em segundos,
conduz o sol
que se prepara para morrer
sem intervalo para se recolher
palavras que possam descrever
a multidão de matizes
que a voz embarga,
o tempo que passa depressa
sem perceber meu olhar que divaga
e tanta beleza atravessa.

Busca!

Em busca de palavras,
na rota do sol,
sigo a rota do sol
quando o vejo bem longe
irradiando sua luz já branda,
expondo um entardecer tranquilo
de cores tênues,
pálidas,
antes do anoitecer.
Vou em busca de palavras
no lusco-fusco,
esparramadas,
abandonadas ao ocaso.
E minha alma se inunda
nessa cascata
que magia infunda,
aura abençoada,
tobogã dos sonhos,
ondulações de cores suaves
como o outono
de folhas caídas,
tapete verde-musgo
mesclado de amarelo-ouro.
Trilha para a fantasia.
Crepúsculo que finaliza o dia
e que sacia a alma
ávida do poeta,
transvestindo rotas em magias
ao nascer da mais etérea poesia.

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