Saudade Imensa!

Tudo passará!

Tudo passará!
O ontem foi triste:
Lembranças,
devaneios,
andanças,
lugares que já não existem.
Datas cravadas,
punhais,
sonhos desfeitos,
ais
não se apagam,
cravam demais.
Rogo ao tempo,
ao relento
carregar o que foi ruim,
o que marcou em mim,
trazendo boas novas
de um recomeçar
não tão triste assim.
Ainda sonho,
às vezes:
nada é como antes.
Atenuantes
que não viram fatos.
(Semi)empolgações
de desacatos
que temperavam
o que vinha a ser
de fato,
consumado,
sacramentado.
O sol ainda brilha.
Brilho tosco,
fosco,
titubeante,
cúmplice
de meus versos irrelevantes
a entristecer,
sem querer,
quem os lê,
à espera,
talvez,
de uma mudança
ou de frases de efeito
a se contrapor
com o cenário imposto
sem ter sido eleito.
Por enquanto,
ficará como está:
não há como forçar
o sentimento
e transformar o lamento
em um cântico
de alegria e paz.
Mas sei:
tudo passará.

Caravana!

Abranda os passos.
O mundo é um círculo.
Leva sempre ao mesmo lugar.
Não há canto,
não há reta,
direção perpendicular.
Alinhe o andar
sem intenção de chegar.
Horizonte-se na linha que virá,
ainda que o tempo se alongue
e as estações tendam a mudarem.
Não perca o compasso.
Há primavera em todo lugar.
Siga a caravana
no espaço
dos que sonham
seus ideais
e aportam no mesmo cais.
Veja as velas içadas no mar
navegando mistérios abissais,
na calmaria de um sopro de vento,
de uma viagem que só leva,
não traz.
Caminha feito as aves
em migração perfeita:
caravana rara
e feita de almas
que voam pelas estradas do céu.
Junte-se à comitiva errante.
Se errar,
siga adiante.
Há tempo para recomeçar.
Vigia os pensamentos.
Cuida dos sentimentos.
Conquista o território sagrado.
No comboio da emoção
deposita o coração.
E deixa a vida passar.

Medo!

Medo!
De me despir das vontades
e nua de desejos e ensejos
perder minha identidade.
De desistir dos sonhos
e imbuir-me de marasmos,
cultivando um amanhã enfadonho.
De mergulhar no vazio,
dele não conseguir sair
e, por mais que eu tente,
nele persistir.
De perder a inspiração,
vítima da síndrome
do papel em branco
e fragmentá-lo
com meu pranto.
De que a sombra se interponha
e me impeça de ver a luz,
o belo,
o arrebol,
o sol.
De que pensamentos funestos
conspirem contra mim,
no universo,
e me retornem
ainda mais perversos.
De não encarar a verdade,
alienar-me à falsidade
e, por mais que me custe,
mascarar a realidade.
De não ter ousado,
não ter lutado,
não ter recomeçado,
não ter acertado,
mesmo tendo amado.
Medo de não perder o medo.

“Mulher!”

Para ser mulher trouxe comigo
a lembrança de um abraço,
um carinho,
um afago
Um beijo de mãe,
de vó,
de tia…
Para ser mulher trouxe os caminhos pisados
por mulheres.
Caminhos que meus pés reinventam,
parindo de si mesmos novas direções.
Para ser mulher trouxe comigo
os olhos atentos,
brilhantes
e curiosos
Observei muito
e aprendi em silêncio,
para poder falar e ouvir,
para poder entender antes de ouvir,
para poder gritar antes de qualquer…
Para ser mulher trouxe comigo
a alegria de gerar uma ideia,
uma nova opção,
um canteiro,
um livro,
Uma música,
uma luz
e recolho do chão as pequenas sementes
que, espalhadas, nos deram alimento
às almas.
Para ser mulher entendi o que de nós mesmas
se pode aplacar
e o que de nós é necessário fomentar.
Aprendi os ciclos e os recomeços,
Aprendi a segurar as mãos pequeninas
e as mãos femininas.
Para ser mulher,
entendi a solidão
e sorri em irmandade.
Para ser mulher sangrei
e renasci muitas vezes.
Para ser mulher,
vesti-me de homem também.
Para ser mulher sigo
sendo, a cada dia,
outra ponta.

Daniela Camargo

Alma Antiga!

Sou do vento,
do tempo,
dos antigos cheiros.
Amante do sol,
das terras perdidas,
parte das batalhas
das guerras pagãs.
Quero as essências!
Alquimias sagradas,
profanos versos
dos sangues pisados.
Rubros!
Rubros!
Sou parte das brumas.
Feitiços violados,
das bruxas,
sou dona.
Vermelho!
Vermelho!
Das paixões internas,
dos conflitos profanos,
das canções, razão;
das profecias, certeza.
Parte das preces
quando ouço dos sinos,
o dobrar.
Sou feita de horas!
Infinito tempo.
Sorvo estrelas.
Descalça,
a terra louvo!
Feita de lua
em cada ciclo,
a prata, bebo!
Fada,
sacerdotisa,
deusa,
madona,
mulher!
Serena,
vestida ou nua:
de poemas, a pele banho;
os poros,
os sussurros,
o arquejar!
Maria Luiza Faria

Vieste!

Eu pedi que você viesse
e trouxesse-me em seus olhos.
Sem palavras exatas,
entre os versos
e indecisões do crepúsculo,
você veio.
Trouxe- me o céu:
o seu.
Trouxe-me suas estrelas.
O firmamento inteiro
no jeito particular de definir- me,
na forma mágica de decifrar-me,
sem chegar à pele.
Eu pedi que você viesse
e trouxesse-me em seus olhos:
sem ruídos imprevistos,
entre pausas
e consentimentos das madrugadas.
Você veio.
Trouxe-me o mar:
o seu.
Trouxe-me suas marés de poesia
no jeito particular de denudar-me,
na forma mágica de descobrir-me
sem ferir a alma.
Você veio
e trouxe-me o sal do sentir.

Manhã!

“Desenha uma manhã,
ainda que imperfeita,
mas onde nos caiba
e, em ti, eu esteja!”
(M. L.)

Eu?

Eu?
Incógnita de mim.
Insolúvel teorema.
Solução e problema.
Simplicidade.
Complexidade.
Imperfeição!
Eclipse solar.
Lunar.
Total, parcial.
Penumbra!
A busca da claridade.
Não e sim.
Começo,
meio(aturdida)
e fim.
Ilha perdida.
Arquipélago da vida.
Barco à vela.
À deriva.
Onde ancorar?
Brilho do sol.
Arrebol.
Crepúsculo e cores.
Primavera.
Beija- flores.
Borboleta que sonda.
Flor que não encontra.
Eu: nó, nós.
Coluna.
Coliseu.
Amor.
Cotovia de quem descreveu.
Canto.
Dor.
Pranto.
Riso.
Acalanto.
Pergunto-me:
Onde me acho?
Em qual plano?
Oceano?
Riacho?
Ou me engano?

Saudade Imensa

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