Mudança!

Abandona o cais.
Navega.
Engole os ais.
Enfrenta as tormentas.
Tu és capaz.
Sai do ventre,
rompe a bolsa.
Desliza com a expulsão.
Respira.
Chora.
Esperneia.
Acata os desígnios da vida.
Ela convoca;
não convida.
Supera idas e partidas,
adeuses e despedidas.
Recolhe os sonhos.
Ainda há.
Basta acordá-los
e viajar.
Escancara a janela.
Observa por ela
e o mundo está lá.
Recomeça.
Um dia após outro.
Se preciso,
hora após hora.
Realiza o que te aflora,
resgata o que perdeste
e te impulsiona a seguir.
Deixa pra trás
o que não volta mais.

Ausência!

Ela dançava,
ela sorria,
ela esbanjava sua alegria.
Ela nascia,
ela morria
e renascia co’a flor do dia.
Ela vertente,
ela nascente,
leito e percurso da poesia.
Corria mundos.
Não poderia
não fosse o dom da inspiração.
Varava sóis,
cobria luas
nas fases frias de noites nuas.
Ela esboçava e coloria
os muros cegos de seus quintais.
Trancava dores,
calava ais,
abria frestas para os amores.
Juntava cacos da euforia
e enfeitava os festivais.
Vagava versos em sintonia
com o trem das cores
nas estações.
Ela fazia e acontecia
sem demarcar as emoções.
Ela nascia,
ela morria.
Hoje ela jaz.
Não nasce mais.

Desenhei-te!

Desenhei-me de ti.
Soletrei tuas palavras.
Embriaguei-me do teu falar.
Bebi tuas promessas.
Acreditei no teu alinhavo.
Naveguei nos teus sonhos.
Me fiz amor.
Deitei sobre a paixão.
Fui verdade.
Senti teus beijos.
Enlacei-me nos teus abraços.
Desejei teu calor.
Queimei-me de prazer.
No desejar,
sorvi o vinho.
Embriaguei-me de teus sorrisos.
Vivi a ilusão,
mas fui verdade.
Amei-te!
E como rosa te perfumei.
Dediquei-me.
Desenhei-te!

Permita-se!

Sem medo, ame!
Somos o fogo dos nossos anseios.
Deliramos em nossos desejos.
Buscamos a felicidade.
Queremos a paz,
o amor,
a alegria.
Precisamos nos permitirmos ser,
inspirar canções,
cantar!
Balançar a rede.
Sublinhar os momentos.
Apreciar o nascer do sol.
Ser nuvem,
calmaria.
Sentir o frio do luar
e a névoa que a cobre.
Abrir o véu.
Enxergar além dos sentidos.
Sentir.
Apalpar com a alma.
Ser a tolerância,
o entendimento.
Querer ser o amor.
Amar intensamente,
sem medo,
sem preconceitos.
Soltar as dores,
as amarras,
entregar-se!
O amor não tem tempo,
tem vida,
paixão,
razão,
querer.
Grite!
Soletre o nome
no delírio da poesia!
Naufrague.
Envolva-se.
Arrisque-se a amar.
Não tenhas medo:
ouça a melodia.
PERMITA-SE!

Pacto!

Compactuo comigo mesma.
Coloco um filtro na realidade
onde os sonhos mais urgentes
não querem acordar.
Purifico o que pode penetrar
e me fazer melhor.
Nada é pior que não tentar.
Deixo levezas umedecerem o pó,
lugares onde a aridez gerou trincas
e a dor se infiltrou sem dó.
Barro excessos.
O peso torna-se indigesto,
fardo que não quero engolir.
Nada que me impeça de ser,
crer,
viver.
Nada a fragilizar minha realização humana.
Abraço conteúdos substanciais
sem trair minha essência,
meus ancestrais.
Dispenso embalagens.
São teias onde posso me enroscar.
À luz do sol aceno.
Arranco o filtro para ela entrar.
Que se alastre,
ocupe os cantos,
seja festa.
Faça-me pensar que toda hora é dia
e a cada instante me vejo amanhecendo
por todo tempo que me resta.

Mudanças!

Um dia tudo muda,
os bastidores revelam o lado real:
o fantástico se torna banal,
os valores se desgastam
e os que restam,
agarram-se no ar.
A ciranda perde o encanto
não canta,
não anda,
não quer mais girar.

Livre!

Solto as rédeas.
Deixo o pensamento
comandar o momento.
O importante é me entregar,
decolar desse porto sem cais,
abandonar o navio,
o vazio,
caóticas e insolúveis situações.
Ir onde ele bem me levar
sem temer o que virá,
o que verei,
o que será.
Sortear direções,
represar previsões
que erram à todo instante
incorrendo em tempestades
as imprevisões diárias.
Por ora,
viajo com meu pensamento
liberando endorfina,
combustível para meu pensar,
oxigênio para meus neurônios,
sem saber onde vai dar:
circundando a rosa dos ventos
tatuada no tempo,
em sonhos e irrealizações.
Disperso poemas,
sentimentos guardados,
chorados,
calados,
inerentes aos temas
que já não estão sobre as mesas.
Um pouco acima do chão
deixo um vão
– entre o abstrato e o concreto.
Talvez uma passagem
para algum amor secreto,
um decreto publicado em poesia
em pleno trajeto.
Voo com meu pensamento
até onde possa voar.
Com ele tenho alento,
paciência para me adaptar.
E volto resiliência,
apta a continuar.

Aos Enamorados!

Hoje rimas reclamam versos:
bailam pelo ar
dissimulando os queixumes.
Flores realçam cores e perfumes
e se revestem das belezas do universo.
Hoje, as dores pausam,
secam o seu pranto,
esquecem suas causas,
silenciam ante a canção
anunciando festa
e festejam a vida que se manifesta.
Hoje, o amor exerce seu poder
e com força tamanha
se faz prevalecer,
surpreende o desencanto,
sublima o inesperado,
enchendo de encantos
os corações apaixonados.

Insana!

E ela renasce a cada fase da lua:
rouba-lhe o brilho
e lhe ofusca o luar,
percorre as estrelas seu insano olhar
e penetra o negro véu,
indo além do céu.
De seus lábios
um balbucio visceral
profetiza um tempo que jamais haverá igual.
De repente,
dança em estranho ritual
e a cada passo avança,
imaginando-se normal,
tomando para si cada pedaço do espaço
sem se importar com a plateia atônita,
que, aos poucos, se esvai,
se descompassa pelos cantos
a amaldiçoar a figura lacônica.
Gira em torno de si toda sensação
como em movimento de rotação.
Pensa em trazer os dias e as noites,
transladando cada estação.
Sinistra,
caminha com a lua
que some no céu
e ela na rua,
e, como miragem,
perde-se a imagem.
Deixa o cenário de ilusões e desenganos:
leva consigo a magia e o encanto.

Despedida!

Tempo de ir se despedindo da vida,
aos poucos,
sem pressa nem letargia,
gerúndio a divagar em qualquer tempo
colhendo a safra mais esperada,
saboreando o fruto doce e oriundo
de muitos outonos belos e profundos
lacrados na memória,
na história
perpetuada de essências vibratórias,
construída à duras penas
ou em situações amenas,
em que suor e brisa compõem o aprendizado
em um morde e assopra,
ri e chora,
sonho que vai e vem
em um campo que aflora e deflora.
Tempo de diminuir a marcha,
apreciar cada detalhe que passa
pela visão de quem olha e vê,
sente e pressente
o vaivém do tempo que só vai,
não vem.
Tempo de respirar aliviada pelo que fez,
ou lamentar o que não pôde
e se desfez.
Caminhar devagar em uma entrega absoluta,
sem luta,
em um passeio que se permitiu ganhar,
na malemolência,
quebrando o ritmo do dia,
o compasso dominado pelas horas
onde cada minuto é um tempo a cumprir,
onde é punido o segundo que escapulir.
A canção,
trilha sonora,
toca suavemente lá fora
a melodia que irradia
relatos de sua história.

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