Subentendido!

Não explico a ausência.
Deixo rastros de resiliência
em sonoro silêncio
a ecoar de mim.
Disfarço minha tristeza
e grito em versos ritmados
cada linha que traço.
Não proclamo o amor.
Está explícito no que faço
e se não faço,
não há.
Não aponto caminhos.
A cada um cabe o seu.
Toda escolha, um dia,
leva ao mesmo encontro.
Não exacerbo o certo
nem restrinjo o errado.
As duas medidas pesam
em diferentes balanças
e a cada uma o seu conceito:
vale deixar subentendido
o que ainda pode ser feito.
Não dito regras nem as formulo.
Cada coração rege seu rumo
e à razão é dado o veredicto final.
Consequência é resultado de toda ação.
Só sei que nada sei
e o não saber
subentende-se:
explora o que não há.
Não apregoo a alegria,
nem descrevo o meu pranto.
Dissimulo a beleza
da poesia dos cantos.
Minh’alma procura mostrar ou
subentende-se em meu olhar.

O Poeta Chora!

E o poeta chorou!
Chorou pelo que podia ser
e não foi.
Por tudo que cultivou
e não deu.
Pela flor que poetizou
e morreu.
Chorou pela insensatez,
pela aridez que se assolou,
pela pequenez que se inflou,
combalido mais uma vez
por ter perdido o sentido
de tudo aquilo que fez.
Pela esperança equilibrista,
pelo fim do show do artista,
pela crueza fria que se estabeleceu,
pela paz que o mundo,
um dia,
creu.
Chorou convulsivamente
de uma só vez,
como uma criança
que, sem nada entender,
precisa, de repente, crescer,
castigada pelo que não fez,
esquecendo-se da bala que a amargou,
para encarar o mundo mau que hoje se instalou.
E o poeta chora!
Fora vencido nessa hora.
Chora por mim,
por você,
pelo que sonhou.
As lágrimas são palavras
que não quer dizer
agora.

Entrega!

Entrego-me ao crepúsculo das horas,
ao tempo que não se demora,
ao sonho impalpável irrompido da aurora
onde minhas mãos resvalam,
tremem,
teimam,
demoram
pelo cansaço da persistência.
Entrego-me ao intransitável,
às lonjuras sem demarcação
a transitar minha existência, minha solidão.
Às veredas purpurizadas,
aos canteiros de jasmins,
às belezas não sondadas que não vejo,
mas que existem sim,
aos sonhos interditados
sem avisos nem porquês,
ao desejo de ir,
apesar de.
À sensação de que vai passar
e permanece,
sem trégua,
em mim.
Aos mistérios a rondar,
ao ter que crer sem ver
e ninguém para revelar.
Ao definitivo do não eterno,
à certeza de haver um fim,
às perguntas sem respostas.
Meu silêncio a gritar
e ninguém a me ouvir.

Mundo Paralelo!

Então perco o chão
na transcendência,
eloquência
e impaciência
de levar meu imaginário
(sem elo)
a um paralelo
mundo são.

Talvez!

Talvez
o tempo reverta
a pálida esperança
em crescente certeza
e me traga a surpresa
de um bem inesperado
que nem sempre se alcança,
ou o amanhã retroceda
ao ontem ininterrupto
e o estenda ao futuro.
Caminho escuro.
E tudo fica na mesma.
História que tento mudar,
rima que não quer mais rimar,
poema que já não se faz notar:
enfatizado,
mastigado,
engasgado.
Talvez
o hoje vivido
tenha valido
uma eternidade
e meu eu distraído
não tenha medido
tamanha felicidade
nem notado as manhãs
de belezas louçãs,
momentos desprezados
na espera do amanhã
que talvez nunca venha
ou se faz de rogado.
Talvez
esses versos piegas
sejam fiéis mensageiros
de tempo verdadeiro,
de mensagens sinceras
e carreguem bagagens
de sonhos,
miragens,
gerúndio se estendendo
em todos os tempos
trazendo-me a chance
de continuar sendo
mesmo em um tempo já ido
sem nunca ter sido.

Ah, poeta!

Ah, poeta,
desenhista do lirismo,
observador das minúcias da alma,
detalhista de tudo que o cerca,
arquiteto de pormenores,
do que avista pelos arredores,
psicanalista que descreve a vida
e revela o além,
a sobrevida
e nada ou ninguém o detém.
Quando morre,
nunca morre de fato
e, em um impacto,
renasce na flor,
ressurge na alegria
ou na dor,
rebrilha no brilho da estrela
que se apaga,
conduz o frágil timoneiro
em sua barca parca,
pincela de cores espaços escuros,
amores falidos,
ocupando vazios
e intervalos obscuros.
Reacende a esperança que,
embora morta,
recomeça a verdejar
por entre estrofes
onde versos são reversos
das decepções
e hostilidades,
das injustiças
e desigualdades,
humanizados docemente em poesia,
na magia de transformar
espinho em fantasia,
na busca incansável
de amenizar a agonia.
O poeta é imortal.
Da alquimia,
a pedra filosofal
conquistada pelo sonho
que traduz
o mais recôndito interior
de sua alma.
Não, o poeta não morre.
Segue a sua luz.
Eterniza-se!
Eterniza-se em palavras!

Poeta!

O poeta sabe que não pode parar.
Nada o obriga a prosseguir,
a não ser a inquietude louca
ou o frenesi indomável
de combinar palavras
colhidas e equilibradas
na corda bamba imaginária
de um circo dentro de si
sem sombrinhas ou proteção,
palavras à vela,
despojo que revela
a verdade que pode ser sua
e se coloca nua,
exposta em uma janela.
Não, o poeta não pode parar.
Tem por sina dizer o que obstina,
tem por norte não temer a morte
visto que da alma lança mão,
alicerce da inspiração,
substrato da mente,
semente que entumece e cresce
enquanto o resto permanece em vão.
Sem poeta é mundo sem visão,
é olhar por trás da lente que embaça,
não perceber o pranto,
o riso,
a esperança,
o sonho escondido
por trás da vidraça,
dançando com versos
ao som da inspiração.
É ver a insensibilidade
virar coração.
É viver em um mundo triste
onde a realidade persiste
em ser apenas o que se é.

Internamente!

Saio de mim.
Observo-me.
Sou mar volteando a ilha
tentando explicações.
Busco me compreender.
De longe e de perto
há muito de encoberto.
Pego carona em uma onda
que me leva e traz.
Passado e presente
vasculham-me a mente,
travando embate perspicaz
à procura da fase em que me perdi,
onde o obscuro não refaz
o que não lembro mais.
Apaguei com borracha
e ninguém me acha.
É onde me desconheço.
Onde a angústia mora
e o nada me consola.
Imagino uma escada
e recomeço outra vez
do primeiro degrau.
Vou limpando as fuligens
até alcançar o último
clareando o que tranquei.
Talvez assim me ache
em um encontro surreal:
Internamente,
terno.

(In)lucidez!

Prefiro o desequilíbrio lúcido
a revirar sentimentos calados
fazendo barulho para manter-me viva,
a seguir outro compasso
na contradança da vida
que contraria
e impede a valsa.
Prefiro perder-me de vista
e reencontrar-me nova
onde se entremeia a pista
que a todo instante se renova
no salve-se quem puder
e salvarem-se todos,
entre mortos e feridos.
Prefiro atalhos cerzidos,
remendados um a um,
à reconstrução de caminhos
que não levam a caminho algum.
Entrego-me ao inesperado,
ao sonho inusitado,
às contradições do dia,
à luz de cada manhã,
à espera compulsória,
ilusória,
alienada ao mistério não revelado
da incerteza do amanhã.
Prefiro-me a mim,
como sou,
assim,
(in)lucidez que vibra
a cada lampejo do sol,
com as miudezas da rua,
com as voltas do girassol,
com a nova fase da lua,
com as reviravoltas da vida.

Poesia!

(…)

E a poesia virá,
simplesmente,
sem palavras,
brandamente,
com o silêncio que se fará,
traduzido pelo encantamento dos versos
que o poeta interpretar,
enlevado pela emoção
de quem fala sem falar.

(…)

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