Infinito!

Quero alcançar os sonhos,
ultrapassar limites,
ir ao fim do mundo
Em um mergulhar profundo.
E, se o inatingível me permite,
cruzar a linha do horizonte,
atravessar a ponte
que une o infinito
aonde o sol se esconde.
Quero vestir toda a magia,
fazer estripulia,
abusar da fantasia
e em um voo inusitado
ver versos espelhados
na luz que traz o dia.
Quero, durante o anoitecer,
em nuvem azul-marinho,
poemas em dourado, tecer
e soprá-los de mansinho
feito poeira cósmica
e ver o céu resplandecer.
Quero ser a própria poesia
e toda a alegoria
que validam o viver
e depois dos versos derramados,
entusiasmos explorados,
quero renascer.

Vazio!

Bate-me a solidão.
Não sei se vem com o vento,
com o tempo, a contratempo,
ou mora em mim.
Com ela o insano desejo
de tardias realizações
como se ainda fosse tempo
de fantasiar ilusões.
Que desejo permanece
se o ensejo enfraquece
quando se chega ao epílogo
e só cabe o fim?
Desejo feito de vazios,
espaços não preenchidos,
retalhos mal costurados
enquanto o mundo era meu.
Sensação de ter perdido
o que tive em minhas mãos
e nem um sopro de maldade, morreu.
Os melhores momentos
escorridos pelos vãos.
Agora a vida insiste em seguir em frente,
embora o mundo me seja indiferente
ou algum imprevisto venha me surpreender,
cruzar o meu caminho
e um novo sopro, de mansinho,
me chame para viver.

Retrato de Mãe!

Diáfana era aquela luz.
Lembrava vida,
que em teu ventre havia.
Mãe, mulher, Maria!
Cristalizaram-se as águas,
Puras, límpidas, pacatas.
De imenso brilho a manhã surgia.
Essência de amor personificada
exalando aroma intenso,
de incenso, de alvorada.
A paz sacramentou o mundo,
momento sagrado, fecundo.
Em uníssonos, sons pianíssimos,
cânticos e hinos, apaziguadores,
vindos do âmago, oravam louvores.
Unificaram-se os matizes,
berços das cores, dos esplendores
e toda beleza resplandeceu o ar,
colorindo todos os cantos de encantos,
nuances suaves a divagar, testemunhar,
invadindo espaços etéreos, surreais.
Encontro inusitado de sentimentos,
unidos pela aura branda do vento.
Os mais nobres e delicados.
Os mais discretos e cordatos.
Os mais sublimes e abençoados.
De auréolas divinas, coroados.
Mãe, ousei descrever o teu retrato.

Amor de mãe!

Fala-me com doçura.
Necessito embalar-me em tua paz.
Momentos de brandura,
que só tua presença traz.
Ajuda-me a renascer.
Já morri tantas vezes.
Ensina-me a viver.
Quero voltar a crer.
Abraça-me com ternura
e no mesmo compasso
da mesma emoção,
sejamos um só coração.
Afasta-me dos medos,
sombras e fantasmas
que impedem meus passos,
sufocando meus sonhos.
Vens libertá-los.
E juntamente sonhá-los.
Traze-me de volta a mim
antes que seja tarde
e nosso tempo acabe.
Está em tuas mãos:
socorre-me.
Pois só o amor de mãe pode.

Lamento!

Lamento pelo inconcebível,
pelo incabível,
pelo que poderia ser e não foi,
pelo que foi e não se pôde mudar.
Pelo desamor,
pelo botão de flor,
pelo não desabrochar.

Lamento a inocência perdida,
imagem denegrida
arremessada, distorcida,
cotidiano da vida.
Lamento pelo vandalismo,
pelo desprezível e insano
cenário de desafeto humano.

Lamento pela fome doída,
pegadas de idas e vindas
buscando um lugar ao sol.
Pelas palavras prometidas,
mal ditas, não cumpridas,
perdendo-se pelo arrebol.

Lamento a alma desprovida,
o descaso pela vida
e todo poder abusivo.
Lamento a lágrima rolada
e o coração corroído
da mãe pelo filho querido.
Lamento o filho nas mãos do bandido.

Lamento a existência atribulada,
o amanhã dilacerado,
o nascer inopinado,
o querer e nada ser.
A indiferença no olhar, que jaz,
o curvar-se ao onipotente.
Viver ou morrer? Tanto faz!

Lamento minha impotência,
procedimento estático
de nada poder transformar.
E em linhas mal traçadas
esboço, derrotada,
meu triste lamentar.

Crepúsculo!

Observo o crepúsculo:
perco-me em cores,
lanço-me ao infinito
retiro-me do mundo
em alma e pensamento
que, ao corpo se fundem,
numa leveza irreal.
Esqueço o que é finito
no encontro com o surreal,
tonalidades múltiplas
ofertadas pelo céu.
Misticismo que palpita,
magia que convida
a repensar a vida,
revertendo o papel
a viver o que ainda resta
do muito que se perdeu,
de tudo que ainda pulsa,
do tudo que quase morreu.

Peregrinação!

Vamos sair.
Andar a esmo
sem o tempo a perseguir,
o tique-taque dos minutos
feito bomba-relógio
prestes a explodir.
E mesmo não sabendo onde ir
sigamos qualquer direção,
por ali, por lá, mais além.
Sem porém.
Ouçamos a emoção,
bússola na peregrinação
das incertezas de se chegar.
Nosso olhar falará por nós,
guardemos na alma nossa voz.
Olhares captam o interior,
o que realmente somos.
Escrevem na linha do tempo
o tanto guardado em segredo,
as entrelinhas do enredo.
Sejamos o nosso porto
para as horas de cansaço.
Nele ancoremos entrelaçados
onde a vida fez questão de nos atar.
Vamos sem rumo.
Barcos sem orientação.
Num ir-se sem volta.
Sem revolta.
Sendo as batidas do coração.

Verdor que salta!

Inminencia,
celeste inminencia
de días que son pájaros,
de pájaros que son venas.
Frescas corolas que se imantan
más allá de mi abismo.
Un ritmo aparte que mitiga
la ausencia en que me hallo.
Algo como un dolor
que acorta la distancia del cielo.
Tendré un nuevo ser.
Un ritmo cenital que me hace libre
de todos los augurios de la tierra.
Verdor incontenible.
Verdor que salta
hasta alcanzar el triunfo
de lo que ha sido en mí
la noche plena.

Entrega!

Entrego-me ao crepúsculo das horas,
ao tempo que não se demora,
ao sonho impalpável
irrompido da aurora
onde minhas mãos resvalam,
tremem, teimam, demoram
pelo cansaço da persistência.
Entrego-me ao intransitável,
às lonjuras sem demarcação
a transitar minha existência,
minha solidão.
Às veredas purpurizadas,
aos canteiros de jasmins,
às belezas não sondadas
que não vejo, mas existem sim,
aos sonhos interditados
sem avisos nem porquês,
ao desejo de ir, apesar de.
À sensação de que vai passar
e permanece, sem trégua,
em mim.
Aos mistérios a rondar,
ao ter que crer sem ver
e ninguém para revelar.
Ao definitivo do não eterno,
à certeza de haver um fim,
às perguntas sem respostas:
Para onde vou? De onde vim?
Meu silêncio a gritar
e ninguém a me ouvir.

Teu silêncio!

Olho-te bem devagar.
Há sempre uma verdade
a ser descoberta,
uma porta fechada,
uma janela entreaberta,
uma luz apagada,
um brilho varando pela fresta.
É preciso desvendar detalhes,
tocar teus limites,
trocar nossos olhares,
concedermo-nos nos ver
e até onde me permites
conhecer o que omites,
o que não deixas transparecer.
Tatear o que me escondes,
desabotoar tuas pausas,
compreender tuas causas,
aceitar-te como és.
E no silêncio da resposta
que me percorre e corrói
mergulhar em tua fala
gritante, berrante, calada,
que imensamente dói.

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